O que Trump espera ganhar com visita de Lula

O que Trump espera ganhar com visita de Lula


O “encontro olho no olho” entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump, marcado para esta quinta-feira (7/5) na Casa Branca, será realizado em um momento em que a relação entre Brasil e Estados Unidos passa a refletir disputas mais amplas de poder, influência e reorganização da ordem internacional.

Em um cenário marcado pela intensificação da disputa entre grandes potências e pela corrida por recursos estratégicos, o Metrópoles ouviu analistas que avaliam o encontro como parte de uma tentativa de o republicano reposicionar a influência da Casa Branca na América Latina, além de garantir insumos essenciais para os Estados Unidos. 

Do ponto de vista norte-americano, o encontro com Lula é visto como uma oportunidade estratégica em múltiplas frentes.

O primeiro eixo é econômico. Especialistas avaliam que o principal interesse do governo Trump é firmar um acordo envolvendo minerais críticos e terras raras – insumos essenciais para semicondutores, inteligência artificial, indústria bélica e transição energética.

O Brasil tem a segunda maior reserva mundial desses minerais. Para os Estados Unidos, a prioridade é reduzir a dependência da China, que é líder nesse setor.

Nesse contexto, o Brasil passa a ser visto não apenas como parceiro comercial, mas como o principal elemento em uma disputa tecnológica global.

Outro ponto sensível envolve comércio e regulação econômica.

Washington tem ampliado críticas a práticas brasileiras em diversas áreas, como etanol, serviços digitais, audiovisual, regulação de plataformas e até sistemas financeiros, como o Pix.

Internamente, o governo Trump também acompanha de perto o avanço de empresas brasileiras, como a JBS no mercado estadunidense, alimentando pressões protecionistas do agronegócio dos EUA.

Há, ainda, uma dimensão menos explícita, mas estratégica: o monitoramento de fluxos financeiros e digitais.

Para especialistas, esse tipo de pressão não é excepcional, mas parte de uma lógica de competição global em que segurança econômica e política externa se tornam cada vez mais interligadas.

Lula e Trump se encontram nesta quinta nos EUA
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Lula e Trump se encontram nesta quinta nos EUA

Ricardo Stuckert/PR

No último ano, Trump elogiou Lula em algumas ocasiões
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No último ano, Trump elogiou Lula em algumas ocasiões

Ricardo Stuckert/PR

Trump em encontro com Lula
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Trump em encontro com Lula

Andrew Harnik/Getty Images


Confira a programação do encontro (no horário de Brasília):


Encontro ultrapassa diplomacia tradicional

Para o professor de geografia humana Vitor de Pieri, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o encontro entre Lula e Trump não pode ser interpretado como uma reunião bilateral tradicional.

“O encontro tende a ultrapassar os limites de uma agenda diplomática tradicional. Ele ocorre em um momento de reacomodação da ordem internacional, de aumento da competição entre grandes potências e de disputa crescente por influência sobre a América Latina”, afirma.

Segundo ele, do lado norte-americano, há uma tentativa de recompor credibilidade estratégica em meio a desgastes recentes da política externa dos EUA, especialmente no Oriente Médio.

Isso leva Washington a reforçar áreas consideradas prioritárias, e poucas regiões têm tanto peso histórico quanto a América Latina.

“Quando os Estados Unidos enfrentam dificuldades em outros tabuleiros, há uma tendência de reforço de presença em regiões estratégicas do hemisfério. O Brasil entra nesse cálculo não como parceiro secundário, mas como ator central”, avalia.

Já para o observador da Casa Branca Fernando Hessel, a leitura sobre o encontro precisa abandonar a ideia de diplomacia simbólica.

“Não existe espaço para amadorismo quando o assunto é esse tipo de negociação. Estamos falando de inteligência artificial, semicondutores, energia e segurança industrial. Isso virou política de Estado”, afirma.

Segurança e crime organizado

Um dos pontos mais sensíveis da agenda envolve a possível reclassificação de facções criminosas brasileiras – como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) – como organizações terroristas.

Há forte pressão de setores ligados ao governo norte-americano para ampliar o conceito de “narcoterrorismo” na América Latina.

Tal manobra tem se refletido em diferentes frentes: operações militares no Caribe e no Pacífico contra embarcações suspeitas de tráfico de drogas, aumento de sanções contra Cuba e atritos recorrentes com a Colômbia de Gustavo Petro.

Esse conjunto de ações revela, então, uma política externa mais assertiva dos Estados Unidos, que combina força militar, sanções econômicas e pressão diplomática como instrumentos de contenção.

Cálculo eleitoral

Trump e Lula chegam ao encontro com uma coincidência: ambos têm na equação eleitoral um fator central de leitura e risco.

Enquanto o brasileiro se movimenta em meio à disputa por um novo mandato em 2026, Trump encara o desgaste político doméstico e a pressão das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em um cenário no qual qualquer gesto externo pode ser convertido em capital político.



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