Com inscrições em braile e texturas, o artista paulistano Kauê Fidelis, conhecido como Kueio, assina a mais recente obra do Grafite Pra Cego Ver, projeto que propõe uma experiência de arte urbana para além do olhar — feita também para ser sentida. Veja o processo de produção:
Na quinta edição da iniciativa, Kauê recebeu o desafio de trabalhar a temática “palavras sem tradução ou traduzíveis” — termos comuns no cotidiano brasileiro que não encontram equivalente direto em outros idiomas. Ao Metrópoles, ele explicou que escolheu a palavra “bico” justamente por seu duplo sentido: o gesto literal e o uso popular como sinônimo de trabalho informal.
“Eu escolhi a palavra bico, que tem alguns sentidos. Ao mesmo tempo que é alguém fazer um bico, um bico de passarinho, também pode ser usado para conseguir o dinheiro de forma informal, é um trabalho informal”, contou.
A obra retrata um coelho motoboy em ação, representando essas duas interpretações: tanto o gesto com a boca quanto a ideia de renda extra.
Para o artista, o convite foi além da execução de um grafite. A experiência envolveu troca e ampliação de perspectivas.“Foi como entrar em um mundo que a gente nunca imaginaria entrar. Para mim, foi bem satisfatório, porque é algo que a gente não imagina”, disse.
Kauê afirma que o projeto proporcionou a ele uma troca. “O mundo das artes visuais, o nome mesmo fala: ‘visuais’, é para as pessoas verem. Aí alguém que não faz parte desse âmbito, que é a visão, conseguir também adentrar nesse campo é uma forma da gente entrar no mundo da galera cega, mas os cegos também entrarem no nosso mundo”, pontuou.
Kauê grafitou a obra no dia 20 de abril, no CEU Taipas, na zona norte de São Paulo. Na ocasião, pessoas com deficiência visual participaram da experiência, realizando a leitura em braille da imagem.
Ao acompanhar pessoas cegas “vendo” sua obra, o artista reforçou a ideia de conexão entre diferentes formas de perceber o mundo: “Eu entrei no mundo do cego e o cego também pode entrar no meu mundo, no mundo das artes, no mundo onde eu estou submerso. Realmente pode ter essa ponte. Eu encaro como se fosse uma ponte, onde não havia ponte”, explicou.








