Lula viaja aos EUA nesta 4ª e quer debater crime organizado com Trump

Lula viaja aos EUA nesta 4ª e quer debater crime organizado com Trump


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) embarca para os Estados Unidos na tarde desta quarta-feira (6/5) para uma reunião de trabalho com o presidente norte-americano, Donald Trump.

A expectativa é que os dois se encontrem na quinta-feira (7/5) para discutir uma proposta de cooperação no combate às facções criminosas, além de temas como minerais críticos, terras-raras e a retirada das sanções ainda vigentes sobre importações brasileiras após a reversão do tarifaço.

A conversa ocorre sete meses após o último encontro entre os presidentes, ocorrido em outubro passado, na Malásia. A visita do petista a Washington estava prevista para ocorrer em março, mas acabou adiada por conta do acirramento do conflito envolvendo os EUA, Irã e Israel.

Agora, Lula pretende retomar a discussão sobre temas de interesse da agenda bilateral entre os países. De acordo com auxiliares, o governo não vê “tema tabu” que não possa ser abordado. A postura, portanto, será de abertura ao diálogo.

Prioridades do governo brasileiro

Do lado brasileiro, as prioridades serão o combate ao crime organizado e a pauta comercial. O governo norte-americano estuda classificar facções criminosas, a exemplo do Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), como organizações terroristas. O Palácio do Planalto rechaça a medida por entender que a mudança pode abrir brecha para interferências externas no país.

Em dezembro, o governo brasileiro encaminhou ao Departamento de Estado uma proposta para fortalecer a cooperação no combate ao crime organizado. A parceria abrange medidas de repressão à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas internacional.

A colaboração no âmbito da segurança pública é vista pelo Executivo brasileiro como estratégica para evitar intervenções na Casa Branca no processo eleitoral brasileiro sob justificativa de combater o crime organizado, como ocorreu na Venezuela, no início do ano. Com isso, o governo brasileiro pretende, como um dos saldos da viagem, assinar um acordo de combate ao crime organizado transnacional com a Casa Branca.

Questões tarifárias

No campo econômico, Lula deve tratar do risco de novas sanções comerciais, com foco especial no Pix. Em entrevista à GloboNews, o vice-presidente Geraldo Alckmin classificou o tema como uma “preocupação” do governo e indicou que será prioridade nas conversas.

Em julho de 2025, o governo norte-americano abriu investigação sobre práticas comerciais brasileiras consideradas “desleais”, que poderiam prejudicar empresas de tecnologia dos EUA, incluindo o Pix, sistema de pagamentos brasileiro. O processo ocorre no âmbito da Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, instrumento usado para apurar possíveis violações comerciais, e pode resultar em novas sanções econômicas.

Alckmin avalia que a investigação “não faz sentido” e defende a necessidade de esclarecer o funcionamento do Pix, que classificou como um modelo bem-sucedido e adotado como referência por outros países.

A apuração também abrange temas como a produção de etanol e o desmatamento ilegal no Brasil. Em 16 de abril, representantes dos dois países se reuniram nos EUA para discutir o assunto, com apresentação de esclarecimentos técnicos e jurídicos às autoridades norte-americanas.

Geopolítica

O presidente Lula também deve abordar a situação no Oriente Médio, da qual o brasileiro tem sido um crítico ferrenho.  A discussão para encerrar a guerra entre EUA e Irã ainda está em andamento e os países ainda não conseguiram chegar a um acordo.

Enquanto Trump defende a atuação contra o Irã, o presidente brasileiro segue na direção oposta e critica a ação americana-israelense. Lula também é um duro crítico de Benjamin Netanyahu, enquanto Trump, por outro lado, vê o primeiro-ministro de Israel como um de seus principais aliados no Oriente Médio.

As recentes ameaças de Trump a Cuba também devem entrar na pauta. O líder norte-americano indicou, na semana passada, a possibilidade de que militares norte-americanos “tomarão o controle” da ilha caribenha em breve.

Lula tem se mostrado preocupado com a situação no país, com a situação humanitária agravada após o acirramento de investidas dos EUA. O titular do Planalto ainda tem feito cobranças públicas recorrentes para que Trump encerre o embargo ao país caribenho, classificando a medida como injustificável e prejudicial à população.


Caso Ramagem

Há duas semanas, as relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos voltaram a se acirrar após o governo de Donald Trump determinar a retirada de um delegado da Polícia Federal (PF) que atuava no país e que participou da prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), na Flórida.

A medida provocou reação do governo brasileiro, que adotou o princípio da reciprocidade, elevando as tensões entre os dois países. Entenda:

  • O ex-deputado federal Alexandre Ramagem, cassado em dezembro de 2025, foi detido pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) em Orlando, na Flórida, em 13 de abril, por estar com o visto vencido desde março. Condenado a 16 anos de prisão por envolvimento em trama golpista, Ramagem é considerado foragido da Justiça brasileira desde setembro de 2025.
  • Dois dias depois, ele foi liberado do centro de detenção sem aviso prévio às autoridades brasileiras. Segundo os EUA, o ex-deputado poderá permanecer em solo norte-americano enquanto aguarda resposta a um pedido de asilo.
  • A Polícia Federal afirmou que a prisão ocorreu com base na cooperação entre os dois países. Já os EUA sustentam que a abordagem ocorreu após verificação do status migratório.
  • Uma semana depois, o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado (WHA) informou a retirada do delegado da Polícia Federal (PF) Marcelo Ivo de Carvalho do país, sob alegação de tentativa de interferência em processo de extradição. Ele atuava como elo entre autoridades brasileiras e o ICE.
  • A medida foi interpretada pelo governo brasileiro como uma quebra de confiança na cooperação bilateral. Com isso, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) determinou o cancelamento do visto e o retorno aos EUA de um funcionário do governo norte-americano que atuava no país junto à PF. Segundo o governo, Michel Myers deixou o Brasil na quinta-feira (23/4).
  • Um segundo cidadão norte-americano também foi alvo de medidas. Ele, que atuava atuava na sede da corporação em Brasília, teve o acesso ao local suspenso, mas, ao menos por ora, permanecerá no Brasil. Por essa razão, sua identidade não foi divulgada.

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Intensificação de diálogo com Trump se aproxima da era Biden

Lula intensificou os contatos com o titular da Casa Branca desde o segundo semestre do ano passado, após a aplicação de tarifas e sanções contra autoridades brasileiras. Com o novo encontro, o petista está próximo de alcançar o patamar de agendas mantidas com o antecessor do republicano, Joe Biden, nos dois primeiros anos de governo.

Levantamento feito pelo Metrópoles aponta que, entre setembro de 2025 e maio deste ano, Lula e Trump conversaram diretamente em cinco compromissos — quatro deles registrados na agenda oficial, e um informal, durante a Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York. Já entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025, o petista e Biden mantiveram agendas em sete ocasiões. O levantamento leva em consideração reuniões e telefonemas.

A primeira conversa entre Lula e Trump ocorreu em setembro do ano passado, à margem da Assembleia Geral da ONU. Na época, a relação entre os países estava estremecida diante da imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, além das sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Os líderes não haviam conversado desde o retorno do republicano à Casa Branca, em janeiro de 2025. Dias depois, em 6 de outubro, ocorreu o primeiro telefonema entre os chefes de Estado, no qual Lula pediu a suspensão do tarifaço e das medidas impostas a autoridades brasileiras.

No fim do mesmo mês, os dois tiveram a primeira reunião bilateral durante uma viagem do petista a Kuala Lumpur, na Malásia, para a cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).

Depois disso, ocorreram outros dois telefonemas: em 2 de dezembro e 26 de janeiro. Os contatos incluíram temas que vão desde a relação comercial, combate ao crime organizado e questões internacionais, como o conflito na Faixa de Gaza e a questão de paz na Venezuela. Na última ligação, os líderes alinharam a viagem de Lula a Washington.

Sob gestão Biden, o petista manteve uma boa relação com a Casa Branca. O presidente democrata foi um dos primeiros líderes internacionais com quem Lula conversou após os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. No mês seguinte, o chefe do Planalto viajou a Washington em um gesto para marcar a retomada das relações entre os países.

Biden também chegou a visitar o Brasil em novembro de 2024, na ocasião da Cúpula do G20, realizada no Rio de Janeiro. Durante a corrida presidencial nos EUA, Lula declarou torcida para o democrata, que acabou desistindo da disputa.


Veja as agendas de Lula e Biden entre 2023 e 2024:

  • 9 de janeiro de 2023: telefonema sobre o 8 de janeiro;
  • 10 de fevereiro: visita oficial de Lula aos EUA;
  • 16 de agosto de 2023: telefonema para tratar de meio ambiente, trabalho e agenda bilateral;
  • 9 de setembro de 2023: encontro com presidentes às margens da Cúpula do G20, na Índia;
  • 20 de setembro de 2023: encontro à margem da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York;
  • 30 de julho de 2024: telefonema sobre temas bilaterais, multilaterais e sobre a situação na Venezuela;
  • 29 de novembro de 2024: almoço à margem da Cúpula do G20, no Rio de Janeiro.



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