O nome curioso guarda um perigo silencioso à população: duas voçorocas têm crescido às margens das BRs 020 e 040, importantes rodovias que cruzam o Distrito Federal de Norte a Sul.
O problema é discreto e pode até ser desconhecido. Quem passa pela BR-040 sentido Plano Piloto, por exemplo, talvez nem se dê conta que uma enorme cratera se formou há anos na lateral da pista e segue aberta até hoje. Para ter a real dimensão da gravidade, é necessário ter acesso a imagens aéreas, como as feitas pelo Metrópoles na última terça-feira (28/4) e anexas ao longo desta reportagem.
Valparaíso (GO)
A voçoroca em Valparaíso (GO) está localizada sentido Plano Piloto, ao lado do Brasil Center Shopping, próximo à passarela amarela que liga os bairros Valparaíso I e II. A cratera tem cerca de 500 metros de comprimento e 20 de profundidade.
A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Goiás (Semad-GO) estima que a voçoroca se formou há cerca de 20 anos. Recentemente, o buraco foi cercado com grades de metal e parcialmente tampado com pedras para evitar o agravamento da erosão.
Sobradinho
Se em Valparaíso a cratera não ameaça casas e prédios, a voçoroca em Sobradinho nasceu ao lado de um residencial próximo à cabeceira do Ribeirão Sobradinho. As imagens abaixo mostram a cratera e, ao fundo, os imóveis do Condomínio Alto da Boa Vista.
Segundo moradores, o problema nasceu em 2013. Em 2020, a voçoroca já possuía cerca de 10 metros de profundidade. Atualmente, há casas a 22 metros da cratera, estima o síndico Tony Pimentel. O residencial, ainda segundo Pimentel, tem aproximadamente 10 mil moradores.
“Famílias vivem hoje a cerca de 22 metros da voçoroca, em situação real de risco, convivendo com insegurança e medo sem que haja resposta do poder público”, afirma.
O que é voçoroca
Voçorocas são grandes erosões, geralmente causadas pela água da chuva. De acordo com a Defesa Civil do DF, a construção excessiva de calçadas e asfalto impede a infiltração natural da água no solo, gerando um escoamento para outras partes e resultando nas crateras.
Além disso, a falta de infraestrutura para captação de águas pluviais, o desmatamento às margens de rios e riachos, o acúmulo de lixo e a ocupação desordenada de terrenos próximo a áreas frágeis aumentam as chances da criação de voçorocas. A Defesa Civil diz ainda que o solo do Cerrado é naturalmente propenso a erosões.
O professor e mestre em Planejamento e Gestão Ambiental Raimundo Pereira Barbosa dá mais detalhes sobre o fenômeno.
“Voçoroca é um estágio avançado da erosão, transformando-se em uma cratera profunda e larga, o que aumenta o carreamento de sedimentos”, detalha. O especialista confirma ainda que a cratera pode atingir dezenas de metros solo abaixo e alcançar o lençol freático.
“As erosões representam perigo real à população, podendo empobrecer o solo, obstruir rios destruir estradas e até mesmo engolir casas, edifícios e outras construções.”
Perigo às casas e rodovias
O mestre Raimundo Barbosa, que também é especialista em Avaliação de Risco Ambiental, alerta que a voçoroca da BR-040 pode, sim, alcançar a rodovia e causar uma interdição forçada. No caso de Sobradinho, o perigo é em relação às moradias.
“A erosão da BR-040 está bem próxima à rodovia e pode destrui-la naquele trecho se não forem tomadas providências para contenção. A voçoroca de Sobradinho também evolui a cada período chuvoso e pode derrubar a cerca e as casas do Condomínio Alto da Boa Vista”, adverte o profissional.
Na visão do especialista, ambas as voçorocas fugiram do controle, não cabendo mais ações preventivas. “Agora, as autoridades têm que mitigar esse processo fazendo obras de engenharia para resolver definitivamente o problema que já se criou”.
Para evitar que novas voçorocas de dimensões elevadas como as das BRs 020 e 040 surjam nos solos do DF e Entorno, os órgãos competentes precisam, no mesmo grau de atenção, gerir o escoamento das águas da chuva e fiscalizar ativamente pontos onde se iniciam pequenas erosões.
“Para conter erosões e voçorocas, as autoridades devem fazer a gestão do escoamento das águas da chuva, construindo a infraestrutura para escoamento de águas pluviais e melhorando a drenagem urbana”, recomenda Raimundo Barbosa. “Também é preciso fazer fiscalização ativa pra detectar os pontos onde se iniciam esses processos erosivos”.
Situação de emergência
Em abril deste ano, o município de Alexânia (GO), no Entorno do DF, decretou situação de emergência devido à formação de voçorocas na cidade. Foram localizadas ao menos cinco crateras.
A Secretaria do Entorno no DF (Seent-DF) visitou o local em 13 de abril deste ano, viu de perto as voçorocas e incentivou o prefeito de Alexânia, Warley Gouveia, a apontar o cenário emergencial do município por meio de um relatório.
Respostas
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), órgão federal responsável pelo trecho da BR-040 próximo à voçoroca em Valparaíso (GO), informou ao Metrópoles que há um projeto de recuperação da erosão já aprovado. A próxima fase é de licitação para contratação de empresa responsável pela obra. O governo federal deve gastar R$ 9 milhões com a intervenção.
O Dnit não deu detalhes do projeto aprovado e não estimou quando a fase de licitação deve ser iniciada.
Em julho de 2025, a Prefeitura de Valparaíso anunciou que faria uma intervenção emergencial no local, em parceria com o próprio Dnit. A ação consistiu na alocação das pedras e na instalação do cercado, como mostram as imagens feitas pelo Metrópoles nessa semana, o que não elimina o problema.
No caso de Sobradinho, os moradores do Alto da Boa Vista travam uma batalha com o Instituto Brasília Ambiental (Ibram). O órgão considera que o condomínio é o causador da voçoroca e precisa ser responsabilizado formalmente, conforme indica ofício assinado pelo presidente Valterson da Silva em 15 de abril deste ano.
O referido ofício responde a Secretaria de Meio Ambiente (Sema-DF) quanto à solicitação de uma reunião para criar de um grupo de trabalho voltado à correção da voçoroca às margens do residencial. No documento, o presidente do Ibram menciona que o condomínio “foi reconhecido como responsável pelo dano ambiental” e, por isso, não haveria necessidade de elaboração de uma equipe institucional para trabalhar.
Portanto, na visão do Ibram, é o próprio condomínio quem tem de promover obra na voçoroca.

O síndico do Condomínio Alto da Boa Vista (CABV), Tony Pimentel, contesta a postura do Ibram. “O CABV possui sistema estruturado de drenagem, com galerias pluviais e 10 bacias de contenção, que amortecem o escoamento de águas. O lançamento ocorre de forma controlada e em nível inferior ao ponto de erosão, inexistindo nexo causal com a voçoroca“, pontua.
‘Tenta-se transferir ao cidadão — neste caso, aos moradores do condomínio — uma responsabilidade que, em grande medida, é consequência direta da ausência de planejamento e execução de infraestrutura pública adequada.”
A reportagem buscou contato com o órgão para confirmar o posicionamento e buscar declarações quanto ao contraponto feito pelo síndico do Condomínio Alto da Boa Vista. O espaço segue aberto para manifestações.

























