Milena Ruppenthal Domingues, 28 anos, evita sair de casa desde a prisão do marido, o policial militar Cristiano Domingues Francisco, 31, em Cachoeirinha. Alheia aos noticiários e redes sociais, tem a companhia dos pitbulls Toretto e Pitty, além dos vira-latas Amora e Bob, dedicando-se a estudar o caso da família Aguiar. Ré por duplo feminicídio e homicídio, negou participação nos crimes, em entrevista ao Correio do Povo.
“Tenho lido bastante os resumos e perícias que minha advogada disponibiliza. Quero ajudar a esclarecer todas as lacunas. Por mais que isso relembre coisas ruins, só nós sabemos onde estávamos e o que fazíamos nas situações em investigação. Há comprovantes e fotos que nos colocam em posição diferente da alegada no inquérito”, diz Milena.
Cristiano é acusado de assassinar a ex-esposa, Silvana Germann de Aguiar, 48 anos, e os pais dela, Isail e Dalmira, 69 e 70, respectivamente, entre os dias 24 e 25 de janeiro, em Cachoeirinha.
De acordo com o Ministério Público (MPRS), Milena teria buscado o filho de nove anos de Cristiano na casa de Silvana, permitindo que o PM ficasse sozinho com a ex. Ainda conforme a denúncia, também teria forjado áudios com a voz de Silvana, via inteligência artificial (IA), emboscando os idosos.
Milena é formada em Tecnologia da Informação (TI), com pós-graduação em IA. Diz não ter experiência em manipulação de vozes.
“Fui acusada, em boa parte, por ser da área de TI. Nunca usei IA em crimes, apenas para trabalho. Também não sei quem fez o conteúdo com a voz de Silvana. Ela era comerciante, falava com muita gente. Talvez um áudio dela tenha caído nas mãos de alguém que sabia fazer manipulações e usou isso de base”, avalia Milena.
Disputas por guarda de criança
Na tese do MPRS, disputas da guarda do filho do PM teriam motivado os crimes. Milena reconhece as desavenças com Silvana, mas nega qualquer violência entre as partes, enfatizando acreditar na inocência do marido.
“Acredito na inocência do Cristiano. Ele nunca faria qualquer coisa que pudesse traumatizar o filho. O menino é a razão de vida dele. Sim, tínhamos desavenças com Silvana, mas não fizemos qualquer ameaça de violência contra ela. Basta analisar a extração dos celulares”, afirma Milena.
A profissional de TI trabalhava em uma startup de educação. Demitida após a repercussão do episódio, desenvolveu sintomas de depressão e ansiedade.
“Tenho buscado emprego, mas está difícil. Meu nome ficou estigmatizado. Isso mexeu comigo. Faço acompanhamento psiquiátrico, com medicamentos controlados”, lamentou.
MPRS diverge da Polícia Civil
Em linguajar policialesco, é possível dizer que MPRS e Tribunal de Justiça não “compraram” a tese da Polícia Civil. A denúncia contra Milena por crimes hediondos contraria o inquérito, pois ela não foi indiciada por mortes.
O titular da 2ª DP de Cachoeirinha, Ernesto Prestes, não achou elementos para indiciar Milena por assassinato. No inquérito, ela figura somente em crimes de baixo potencial ofensivo.
“A gente identificou que a esposa do autor participou ativamente, ao que tudo indica, no pós-crime, manipulando dados e conduzindo depoimentos”, sustentou o delegado Ernesto Prestes, durante raro pronunciamento, em coletiva.
O MPRS ainda decidiu reclassificar as mortes como duplo feminicídio (Silvana e Dalmira) e homicídio (Isail), devido ao contexto familiar dos crimes. Já o delegado, tratou a morte de Dalmira como homicídio.
“Milena não participou do ato material de matar os vitimados, mas teve contribuição imprescindível”, disse o promotor Caio Isola de Aro.
Como se já não bastasse, destoa o tratamento dado a Paulo da Silva, Ivone Ruppenthal e Maria Rosane Domingues Francisco, respectivamente amigo e mães de Milena e Cristiano. Eles foram indiciados, mas não constam na denúncia. Em outras palavras, novamente na gíria policial, nenhum deles foi “costurado”.
Justiça acata tese do MPRS
O juiz Márcio Luciano Rossi Barbieri Homem, da 1ª Vara Criminal, acatou a denúncia. Porém, mesmo com Cristiano preso preventivamente, não foram deferidas as solicitações de prisão do irmão dele nem de Milena.
Cristiano e Milena são acusados de duplo feminicídio e homicídio, ocultação de cadáver, furto, fraude processual e associação criminosa. O PM também responde por abandono de incapaz e falsidade ideológica, e Milena é acusada por falso testemunho.
O irmão do PM, Wagner Domingues Francisco, é réu de ocultação de cadáver, fraude processual e associação criminosa. As notas das defesas estão ao fim desta matéria.
Excluídos da acusação
Paulo da Silva teve arquivado indiciamentos por fraude processual e associação criminosa, pois não havia elementos suficientes para acusá-lo. A alegação de falso testemunho terá análise em separado.
Ivone Ruppenthal e Maria Rosane Domingues Francisco tiveram arquivamento parcial do delito de associação criminosa. Se houver denúncia por fraude processual, será com Acordo de Não Persecução Penal.
O que diz o advogado Jeverson Barcellos, que representa Cristiano Domingues Francisco
Jeverson Barcellos não comenta a ação, mas reafirma que seu cliente diz não ter qualquer envolvimento com o sumiço e morte da família Aguiar. O PM está detido no Batalhão de Polícia de Guarda (BPG), em Porto Alegre.
O que diz o advogado Ricardo Breier, que representa Wagner Domingues Francisco
A Defesa técnica de WAGNER DOMINGUES FRANCISCO vem a público manifestar-se acerca da coletiva de imprensa realizada na data de hoje, pelo Ministério Público, relativa ao caso da família Aguiar. Inicialmente, cumpre esclarecer que, desde a última manifestação, a situação da Defesa permanece inalterada, não tendo sido franqueado acesso à integralidade dos expedientes, tampouco ao volume de dados e elementos informativos mencionados pelo Ministério Público, apesar dos requerimentos já formulados ao juízo. Nesse contexto, as acusações até então divulgadas, tanto pela Polícia Civil quanto pelo Ministério Público, consistem em versões unilaterais, não submetidas ao contraditório e à ampla defesa, o que impõe cautela na formação de qualquer juízo conclusivo. Com o oferecimento da denúncia e o início da ação penal, WAGNER DOMINGUES FRANCISCO terá assegurado o exercício pleno de sua defesa, oportunidade em que poderá se manifestar de forma técnica, dentro do devido processo legal, e apresentar os esclarecimentos necessários acerca dos fatos.
O que diz Suelén Lautenschleger que representa Milena Ruppenthal Domingues e os outros indiciados
A defesa de Milena, Paulo, Maria Rosane e Ivone informa que, ao longo do regular trâmite processual, será devidamente demonstrada — com a garantia do contraditório e da ampla defesa — a inocência dos envolvidos, bem como a fragilidade dos indícios apresentados no inquérito policial.
Ressalta-se, ainda, que serão levadas ao conhecimento do Poder Judiciário as irregularidades ocorridas durante a investigação, somadas a eventuais abusos praticados, os quais serão oportunamente apurados pelos meios legais cabíveis.