Lemborexante: medicamento aposta em novo caminho para tratar a insônia
Medicamento aprovado no Brasil promete tratar a dificuldade para dormir com abordagem inovadora. Mas mudança de hábitos ainda é fundamental
O tratamento para a insônia traz alívio a quem vive com dificuldade para dormir. Mas os principais medicamentos usados atualmente podem trazer efeitos indesejados a longo prazo, como dependência e sonolência. Daí a importância de abordagens terapêuticas que ajudem no sono sem essas reações, como é o caso de um fármaco aprovado em 2025 no Brasil que promete tratar a insônia por um mecanismo distinto.
O lemborexante, que deverá ser comercializado sob o nome Dayvigo, pertence à classe dos antagonistas duplos do receptor de orexina (Dora). Isso significa que atua diretamente sobre os receptores de orexina 1 e 2 (OX1 e OX2).
Também conhecida como hipocretina, a orexina é um neuropeptídeo produzido na região do hipotálamo lateral, que exerce papel central na manutenção dos estados de vigília e alerta, bem como da estabilidade do ciclo sono-vigília. Conforme reduz os sinais que mantêm o cérebro em alerta, a substância favorece a transição para o sono, em um movimento mais próximo do fenômeno fisiológico de adormecimento.
Hoje, os tratamentos mais comuns se baseiam no uso de benzodiazepínicos (como clonazepam, diazepam, alprazolam e lorazepam), as chamadas drogas Z (que incluem zolpidem, zopiclona e eszopiclona) e alguns antidepressivos e antipsicóticos empregados de forma off-label, aproveitando seu efeito de sonolência. Essas alternativas potencializam a ação do ácido gama-aminobutírico (GABA), neurotransmissor capaz de desacelerar as funções cerebrais, promovendo a sedação do sistema nervoso central.
Esse mecanismo é eficaz em fazer as pessoas dormirem, mas o uso contínuo pode trazer efeitos colaterais de grande risco. “Os benzodiazepínicos estão associados a tolerância, dependência, prejuízo cognitivo, sonolência residual, risco de quedas e alteração da arquitetura normal do sono”, destaca o neurologista Rodrigo Meirelles Massaud, do Einstein Hospital Israelita. “As drogas Z, embora inicialmente consideradas mais seguras, também podem causar dependência, amnésia e comportamentos complexos do sono, como sonambulismo e automatismos noturnos.”
Na prática, o tratamento a longo prazo com essas substâncias leva o organismo a se adaptar à ação dos medicamentos. Isso faz com que a dose inicial perca efeito gradualmente, levando muitos pacientes a precisarem de doses maiores para obter o mesmo resultado. Além disso, o corpo pode passar a depender da medicação para dormir. Por isso, a interrupção pode provocar sintomas de abstinência e a chamada insônia rebote, quando a dificuldade para dormir volta ainda mais intensa do que antes.
No estudo clínico SUNRISE 1, cujos resultados foram publicados em 2019 na revista JAMA, o lemborexante reduziu o tempo de adormecimento dos participantes com histórico de insônia em comparação a grupos que receberam placebo ou zolpidem. Também houve melhora na eficiência do sono: os voluntários que receberam a medicação tiveram mais de 60 minutos adicionais de sono por noite.
Em um estudo clínico posterior, o SUNRISE 2, testou-se a eficácia e segurança da substância em comparação a um placebo ao longo de seis meses. Os resultados, descritos em um artigo publicado em 2020 na revista Sleep, mostraram benefícios consistentes em parâmetros fundamentais do sono.
Mais de 30% dos participantes em tratamento com o remédio atingiram critérios de resposta para início do sono, contra 18% no placebo. Em relação à manutenção do sono durante toda a noite, os índices mantiveram-se no patamar de 30% a 35% nos grupos ativos, frente a apenas 20% no placebo.
O tratamento deve ser individualizado, prescrito por médico e destinado a adultos com diagnóstico de insônia. “Nenhuma medicação para sono é completamente isenta de efeitos adversos. O lemborexante pode causar sonolência diurna, fadiga, sonhos vívidos, paralisia do sono e piora do desempenho quando associado ao álcool ou a outros depressores do sistema nervoso central”, observa o médico do Einstein.
Por isso, é importante que o uso seja acompanhado de perto por um profissional de saúde. “Ao contrário de doenças como hipertensão e diabetes, que exigem um cuidado contínuo, o transtorno da insônia é flutuante e dinâmico. Muitas variáveis estão envolvidas e pode chegar um momento da vida em que tudo se estabilize, permitindo até a retirada da medicação”, sugere o clínico Rodrigo Nascimento, diretor médico da Eisai, farmacêutica japonesa responsável por desenvolver o remédio.
A insônia é considerada um dos distúrbios do sono mais comuns no mundo. Segundo uma pesquisa publicada em 2025 na revista Sleep Medicine Reviews, estima-se que a condição atinja cerca de 852 milhões de pessoas, correspondendo a uma prevalência de aproximadamente 16% entre toda a população.
Essa crise epidemiológica é fruto, sobretudo, do estilo de vida contemporâneo. “Vivemos em um ambiente biologicamente pouco compatível com a fisiologia natural do sono. O ser humano evoluiu para sincronizar seu ciclo circadiano com luz solar, atividade física diurna e períodos relativamente previsíveis de descanso”, analisa Massaud. “Hoje, porém, há exposição excessiva à luz artificial, hiperconectividade, jornadas prolongadas de trabalho, ansiedade crônica, uso intenso de telas e estímulos constantes até altas horas.”